“Se você não se ocupar da tecnologia, ela vai se ocupar de você.”
Recentemente, apareceu um garoto que ninguém nunca tinha ouvido falar e disse que a Inteligência Artificial pode extinguir a humanidade em 10 anos. O que já era medo tornou-se pânico, e incontáveis reportagens, resenhas e republicações da posição de Jacob "sei lá o quê"1 pipocaram na internet.
Eu não quero aqui dizer o que deve ocorrer, pois não sou especialista em tecnologia e não tenho conhecimento específico para tal. E tenho severas dúvidas se os especialistas, de modo geral, são mesmo capazes de antecipar todos os rearranjos sociais que decorrerão dessa revolução tecnológica.
Apenas posso especular, apostar em uma hipótese. Nada mais que isso. E, para isso, devo advertir que tenho olhado para o desenvolvimento tecnológico com curiosidade histórica, em lugar do pânico. Fico instigado em como seremos vistos e descritos pelas gerações futuras em relação às escolhas que temos feito.
Isso não quer dizer que eu esteja otimista. Pelo contrário.
Tenho tentado compreender a revolução trazida pela IA, sobretudo com o advento do ChatGPT (OpenAI) e, mais recentemente, do Claude (Anthropic), e seus possíveis impactos. Analiso como um não especialista2 e com a curiosidade que é a matriz de todo o conhecimento. Só aprendemos algo para valer, quando a curiosidade nos impulsiona — ou porque há pais raivosos por notas melhores na escola. Isso também costumava a ser usado como "estímulo" ao estudo, nos meus anos de infância.
Essa curiosidade me instigou a ouvir diversos "experts" de IA, incluindo os donos das Big Techs — com interesses, obviamente, parciais —, dos críticos das Big Techs, dos otimistas, dos pessimistas, dos negacionistas, dos "entendidões", dos futuristas, futurólogos e o escambau.
Há algum tempo tentei buscar um pouco de tudo e tropeço com especialistas, comerciais e analistas a todo momento. Na rede social, no barzinho, no colega de trabalho, na televisão. Tem sempre alguém "explicando" o que é e o que vai acontecer.
Quando tentei sistematizar esse punhado de posições, percebi que todos os meus "pesquisados" poderiam ser divididos em dois grandes grupos3, que se fundam em duas perspectivas que rivalizam entre si:
Aqueles que entendem a IA como "machine learning"; e
A IA apenas como administradora e executora de banco de dados massivo, a partir de algoritmos.
Vamos, somente para simplificação do texto, chamar o primeiro grupo de "entusiastas" da IA e o segundo grupo de "recalcitrantes".
A perspectiva dos entusiastas pode ser traduzida na imagem de robôs superinteligentes — incluindo humanoides — que superariam a inteligência humana, à medida que seriam máquinas com capacidade de raciocínio inacreditável, capaz de encontrar respostas para diversos mistérios inexplicados até o momento. Seria uma competição desleal com humanos, tendente, portanto, a aniquilar todos os espaços ocupados por nós.
Isso seria possível a partir da noção de que uma máquina, ao adquirir uma base de dados que a torne inteligente, estaria apta a ensinar outra, que, por sua vez, se tornará uma pupila que superará seu mestre. E assim sucessivamente, até que mais e mais respostas seriam encontradas, inventos seriam desenvolvidos e soluções seriam alcançadas, tudo para servir às necessidades de nós, indivíduos.
A segunda perspectiva seria de que a IA nos oferece um "presente sem futuro". A mente humana — e a própria individualização da mente e do corpo — é conceito científico em disputa. Inteligência e raciocínio idem. A IA trabalha com sistemas algorítmicos matematizáveis. A experiência humana, seu pensamento, insights e raciocínio não são redutíveis a uma fórmula matemática e, portanto, são uma experiência muito mais complexa que a IA pode oferecer. Envolvem não só a matemática, mas também aspectos físico-químicos. Aquelas coisas que costumamos nominar como emoções ou sentimentos. A par desse entendimento, os recalcitrantes alegam que a IA poderia compor coisas novas que pareçam Beethoven, que façam você ter certeza que Beethoven compôs aquilo. Mas não poderia produzir um novo Beethoven e iniciar algo tão diferente e novo como Beethoven fez no passado. Estaríamos, nesse modo de ver, condenados a apenas replicar o passado, a partir daquilo que a humanidade já sedimentou. Nada genuinamente novo decorreria. A IA apenas seria capaz de reproduzir, por meio de algoritmos, padrões já existentes que estejam probabilisticamente mais tendentes a estar corretos ou gerar melhores resultados.
Portanto, essas duas perspectivas antagônicas e excludentes entre si parecem concorrer para desfechos bem distintos, ainda que nenhum deles traga um panorama animador, ao menos a partir das lentes que eu vejo o mundo.
Se os entusiastas estiverem certos, a tendência seria a rápida superação do homem pela máquina. Essa perspectiva chega a tornar palpável aquela teoria de que somos uma espécie de entretenimento de gerações distantes no futuro, e a máquina estaria nos controlando (eu confesso que essa teoria aguça a minha imaginação e sempre acho que daria um bom filme) ou qualquer outra teoria assombrosa desta magnitude.
Se a racionalidade derivada da IA ganhar a escala prometida pelos entusiastas, a percepção inerente é que os mistérios da vida serão todos respondidos e mal podemos imaginar os desdobramentos dela decorrentes.
De outro lado, se os recalcitrantes estiverem com a razão, a tendência seria a IA exibir e oferecer suas reais potencialidades, mas sem promessas de uma superinteligência capaz de aniquilar nossa existência e utilidade neste planeta. Com isso, assim como a internet, o Google, o YouTube e outros adventos dos nossos tempos, a IA se consolidaria, mas não estaria apta a cumprir a profecia do tal Jacob.
Mas antes que você se apegue à 2ª corrente — pois, provavelmente, você não é acionista de nenhuma Big Tech envolvida com IA e, portanto, está bem preocupado em como colocará comida na mesa nos próximos decênios — observe os seguintes aspectos:
Ponto um. Ainda que seja APENAS e tão somente uma administradora e executora automatizada de um massivo banco de dados, a IA tende a revolucionar a forma como trabalhamos e como experimentamos o mundo e nossa existência. Novas profissões e especialidades surgirão e muitas outras tendem a desaparecer. E, ao que tudo indica até o momento, o saldo parece tender para o aumento expressivo do desemprego.
Ponto dois. Hoje, as empresas de tecnologia valem algo entre US$ 47 e 55 trilhões e respondem por cerca de um terço de tudo o que está listado nas bolsas do mundo. Somente as sete grandes empresas (Nvidia, Apple, Alphabet, Microsoft, Amazon, Meta e Tesla) somam US$ 24,6 trilhões, na data em que esse texto é escrito. Nunca na história do capitalismo investiu-se tanto em um só modelo de negócios. Chega a ser paradoxal que o mercado como um todo tenha contradito sua máxima mais popular: "não se deve colocar todos os ovos no mesmo cesto". Se a 2ª corrente estiver certa, essa conta não vai fechar e esse investimento não vai dar o retorno esperado. E, ao que tudo indica, todo o dinheiro do mundo está nesse cesto.
Ponto três. Mas se quem estiver certo forem os entusiastas e nenhuma ruptura no equilíbrio do mercado ocorrer, ou seja, se essa conta vier a ser paga, significa que sua vida mudou a tal ponto que o mundo em que vivemos será irreconhecível em pouco tempo. Bem pouco, se considerarmos o tempo de nossa existência como espécie nesse universo.
Ponto quatro. Entusiastas e recalcitrantes concordam em um ponto. Diversas atividades humanas, ainda dependentes de trabalhos manuais ou matematizáveis, tendem a ser aniquiladas. A incerteza repousa muito mais nos avanços do conhecimento humano e o progresso da humanidade enquanto espécie. Isso significa que, de fato, independente do real potencial que a IA possa oferecer, parece inquestionável que ela é um meio de automatização formidável, sobretudo para tarefas mais suscetíveis a erro humano (sabe aquele "zerinho" a mais que a gente colocou na planilha, quando estava cansadão, no fim do dia?).
Nesta encruzilhada, ao analisar esses cenários, tenho a sensação de perda em qualquer dos lados que prospere. Então, o que fazer?
Para começo do pagode, é preciso refletir a sério sobre essas duas perspectivas, pois as próprias potencialidades da IA ainda são nebulosas. Enquanto os entusiastas — e, principalmente, os donos de Big Techs, a quem, convenhamos, não devemos dar muito crédito, pois são partes interessadas — descrevem uma capacidade massiva de substituição de toda e qualquer atividade humana, os recalcitrantes mostram que o que se pode esperar não é exatamente esse tipo de promessa.
Até o momento, por mais impactante que tenham sido as transformações, elas não se distanciaram tanto assim do período da revolução industrial, ou do advento da internet. Na verdade, até o momento, ela se assemelha a mais um passo do processo de desenvolvimento tecnológico humano, existente desde o conhecimento mais primitivo, que busca a automatização do trabalho, ainda que esse passo da IA seja rápido, monstruoso e extremamente disruptivo.
Há quem identifique — em nosso sentir, com perspicácia — o procedimento de construção das pirâmides do Egito como um passo primitivo do que se tornaria a automatização de atividades humanas. Pense na maior parte — talvez todos — dos inventos e perceberá que sua tendência é automatizar, dar escala, a alguma atividade humana. Uma lâmina de barbear automatizou a dolorosa tarefa de arrancar pelos um a um ou aos tufos. Os computadores foram concebidos para sistematizar dados em uma velocidade que os humanos não seriam capazes4. A IA, para administrá-los e executá-los de forma ainda mais automática.
Portanto, seja qual for a perspectiva que você aposte, eu julgo que o panorama não parece nem um pouco agradável. Assim, seja você um entusiasta ou recalcitrante, parece mesmo ser tempo de pensarmos em soluções para esses novos desafios.
E eu proponho a dividi-los em uma dimensão imediata e outra remota.
Para agora, imediatamente, penso ser necessário olhar com cuidado e honestidade para as suas atividades, buscando aprimorar, ressaltar e potencializar aquelas que não sejam matematizáveis. Além disso, acompanhar o progresso tecnológico e mudanças nas atividades "automatizadas" e "mecanizadas". Se você não se ocupar da tecnologia, ela vai se ocupar de você. E isso parece inevitável.
Já numa perspectiva de longo prazo, o caminho seria repensar diversos aspectos fundantes da nossa sociedade e refletir sobre as escolhas que nos trouxeram a esse ponto. Repensar a forma como estruturamos a sociedade e nossas prioridades. Pense na IA e o que ela trouxe até agora.
No plano do avanço da saúde, da cura definitiva e indolor do câncer, do HIV e de outras patologias que ainda aguardam por cura ou tratamentos menos aviltantes ao corpo e à alma ainda estão esperando a sua vez. Pouco, muito pouco avanço. Pergunte a um paciente em quimio e radioterapia se ele acha que a IA tem feito o suficiente por ele.
Mas os avanços obtidos por meio de deliberada apropriação (indevida, em minha interpretação jurídica) de propriedades intelectuais foram notáveis, a ponto de já não podermos navegar na internet com segurança sobre se o vídeo que estamos assistindo na tela do celular é um vídeo gerado por IA ou é de uma cena real. Imagine, por poucos instantes, a fortuna e a energia investidas nesse desenvolvimento tecnológico. Imagine esses recursos canalizados para a cura do câncer — sem quimio e rádio. E esse é apenas um exemplo que podemos imaginar.
Quais são nossas prioridades enquanto seres humanos, enquanto seres coletivos?
A profecia de Jacob se cumprirá, cedo ou tarde, se não recalibrarmos nossas prioridades. Não porque a IA tenha esse potencial inerente apenas. Mas porque estamos, deliberadamente, canalizando os recursos dela para finalidades bem menos nobres que o bem-estar humano.
Recentemente, um garoto que ninguém nunca tinha ouvido falar disse que a Inteligência Artificial pode extinguir a humanidade em 10 anos. O medo virou pânico, e a posição de Jacob "sei lá o quê" pipocou na internet.
Não quero dizer o que deve ocorrer: não sou especialista em tecnologia, e duvido que os especialistas antecipem os rearranjos sociais dessa revolução. Apenas aposto em uma hipótese, com curiosidade histórica, em lugar do pânico. Isso não quer dizer que eu esteja otimista. Pelo contrário.
Ouvi donos de Big Techs, críticos, futurólogos e o escambau. Todos cabem em dois grupos: os "entusiastas", que entendem a IA como "machine learning", e os "recalcitrantes", que a veem apenas como administradora e executora de um banco de dados massivo, por algoritmos. Para os entusiastas, cada máquina inteligente ensina outra que a supera, até ultrapassar a inteligência humana e aniquilar os espaços que ocupamos. Para os recalcitrantes, a IA oferece um "presente sem futuro": trabalha com sistemas matematizáveis, e a experiência humana não se reduz a uma fórmula. Poderia compor algo que você teria certeza de ser Beethoven, mas não um novo Beethoven. Estaríamos condenados a replicar o passado.
Nenhum desfecho é animador. Se os entusiastas estiverem certos, a tendência é a rápida superação do homem pela máquina. Se os recalcitrantes tiverem razão, a IA se consolidará, como a internet, mas não cumprirá a profecia do tal Jacob.
Antes de se apegar à segunda corrente, observe quatro pontos. Ponto um: ainda que seja APENAS uma administradora de dados, a IA tende a revolucionar a forma como trabalhamos, e o saldo parece tender ao aumento expressivo do desemprego. Ponto dois: as empresas de tecnologia valem entre US$ 47 e 55 trilhões, um terço das bolsas do mundo; só as sete grandes somam US$ 24,6 trilhões. O mercado contradisse sua máxima mais popular, "não se deve colocar todos os ovos no mesmo cesto": todo o dinheiro do mundo está nesse cesto. Se os recalcitrantes estiverem certos, essa conta não vai fechar. Ponto três: se a conta for paga, o mundo será irreconhecível em pouco tempo. Ponto quatro: ambos concordam que atividades manuais ou matematizáveis tendem a ser aniquiladas.
Tenho a sensação de perda em qualquer dos lados que prospere. Então, o que fazer?
Para começo do pagode, as potencialidades da IA ainda são nebulosas. Até aqui, as transformações não se distanciaram tanto da revolução industrial ou da internet: a IA parece mais um passo — rápido, monstruoso, disruptivo — da automatização do trabalho humano, que vai das pirâmides do Egito à lâmina de barbear e aos computadores.
Proponho soluções em duas dimensões: imediata e remota. Para agora: potencializar, nas suas atividades, o que não é matematizável, e acompanhar a tecnologia. Se você não se ocupar da tecnologia, ela vai se ocupar de você. No longo prazo: repensar nossas prioridades. Na cura do câncer, a IA avançou pouco, muito pouco; na apropriação de propriedades intelectuais e nos vídeos que já não distinguimos de cenas reais, o avanço foi notável. Imagine esses recursos canalizados para a cura do câncer.
A profecia de Jacob se cumprirá, cedo ou tarde, se não recalibrarmos nossas prioridades. Não porque a IA tenha esse potencial inerente apenas. Mas porque estamos, deliberadamente, canalizando os recursos dela para finalidades bem menos nobres que o bem-estar humano.
A profecia se cumprirá, cedo ou tarde, se não recalibrarmos nossas prioridades.